Liderança com propósito: Uma conversa sobre maturidade, governança e resiliência com Larissa Lima
Empreender no ecossistema atual exige mais do que boas ideias, demanda maturidade operacional, resiliência e uma capacidade cirúrgica de equilibrar o crescimento do negócio com a preservação do capital humano. À frente do GPD, Larissa Lima traduz essa dinâmica diariamente.
Em sua quarta experiência empreendedora, ela traz na bagagem a vivência de quem já liderou ecossistemas complexos em momentos de crise e, hoje, consolida um modelo de governança focado em previsibilidade e empatia.
Nesta entrevista, Larissa reflete sobre os desafios da hiperconectividade, as nuances da liderança feminina e o verdadeiro legado por trás de uma gestão orientada por processos vivos.
1. Olhando para o início da sua jornada, qual foi o maior “não” que você recebeu e que, no fim das contas, acabou se tornando o combustível para você chegar à cadeira de CEO?

Larissa Lima: Essa é uma pergunta difícil. Penso que o maior desafio está sempre na fase atual que vivemos. Eu estou empreendendo pela quarta vez, mas acredito que o elemento comum em todas essas etapas é o forte desejo de equilibrar as necessidades da vida pessoal com a transformação que eu busco realizar através do meu trabalho.
Tenho refletido bastante sobre os vários “pratinhos” que precisam se combinar na vida da mulher que empreende. Sem dúvida nenhuma, empreender é uma decisão difícil, mas é uma escolha que considera diretamente o meu impacto possível na minha própria vida e na vida de todos aqueles que são impactados por ela.
2. Gerenciar crises faz parte do escopo de qualquer grande liderança. Qual foi a crise operacional ou de mercado mais complexa que você liderou e qual foi o principal aprendizado que ela deixou sobre maturidade de processos?
Larissa Lima: Sem dúvidas, o momento mais complexo foi liderar o time de Marketing para mais de 2.000 agências no Brasil em plena pandemia. Eu estava há apenas seis meses em Florianópolis, atuando como gerente de marketing na RD Station, e recebi a missão de revisar absolutamente tudo para apoiar o nosso ecossistema naquele cenário incerto.
O principal aprendizado que tirei dali foi a importância crucial de ter um time próximo, um conhecimento profundo sobre as habilidades e potências de cada profissional e um real alinhamento de propósito. Com isso, a gente conseguiu inovar como nunca, dar o suporte necessário em meio à crise e ver o crescimento de novos modelos de negócio. No fim, todo o time ganhou novas perspectivas de promoção, inclusive eu.
“O principal aprendizado foi ter um time próximo, conhecimento sobre as habilidades e potências e o real alinhamento de propósito. A gente conseguiu inovar como nunca.”
3. Equilibrar uma carreira de alta performance com a vida pessoal e o autoconhecimento é uma cobrança que costuma pesar muito mais sobre as mulheres. Como você estabelece seus próprios limites de produtividade e saúde mental na era da hiperconectividade?

Larissa Lima: Talvez esse seja o principal aprendizado da minha forma atual de liderar. Os modelos tradicionais de sucesso que conhecemos historicamente carregam aquela velha ideia de que o homem entrega tudo o que pode no trabalho porque encontra uma casa organizada e filhos sorridentes esperando por ele.
A minha trajetória é rara; venho com uma história de vida densa e com a necessidade de me reinventar múltiplas vezes. Portanto, aprendi a respeitar o ritmo do meu corpo quando ele é muito exigido, a construir um time forte para garantir a continuidade dos processos corporativos e, acima de tudo, a me colocar presente naquilo que realmente importa para a vida.
4. Muitos negócios falham por falta de processos claros. Como você estruturou a governança da sua empresa para que os projetos rodem com previsibilidade e blindados contra crises?
Larissa Lima: Sendo o GPD um negócio baseado essencialmente no conhecimento humano, eu acredito que não exista uma “blindagem” total.
Essa rigidez extrema, ao contrário do que se pensa, tende a estressar a operação e a expulsar os grandes talentos. A frase “duro com processos e flexível com pessoas” é o meu mantra de gestão.
A gente constrói, repete e revisa rotinas adequadas ao objetivo dos negócios, tanto para o GPD internamente quanto para a oferta que entregamos aos nossos clientes.
Ferramentas de governança como a abertura de semana bem estruturada, divisões possíveis de entregas ao longo dos dias e o acompanhamento próximo dos avanços nos permitem ajustar as demandas em tempo real, gerando muito menos comprometimento e impacto negativo para a entrega final.
5. Quando outras mulheres olharem para a sua gestão e para a cultura da empresa hoje, qual é o principal legado de liderança e governança que você quer que elas reconheçam em você?
Larissa Lima: Essa pergunta é para chorar, não é? Eu entendo que me construí de forma rara, tendo poucas semelhanças de rotina prática entre as mulheres com as quais convivo no dia a dia. O que de fato nos conecta são os valores, sem dúvida alguma.
Empreender com inovação exige muita coragem, mas também carrega consigo uma boa dose de desamparo. Eu honestamente não desejo que as novas empreendedoras precisem passar por esse mesmo desamparo. Por isso, o meu compromisso definitivo é com o equilíbrio possível, garantindo que o trabalho seja um motor de realização para viver, e não um obstáculo para a vida.
Processos vivos e liderança com propósito

A trajetória de Larissa Lima deixa claro que a maturidade de processos e a governança inteligente não precisam anular a sensibilidade humana.
Ao estabelecer o “equilíbrio possível” como métrica de sucesso, a liderança à frente do GPD demonstra que o crescimento previsível de uma empresa nasce da clareza operacional aliada à flexibilidade e ao respeito profundo às pessoas.




